segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Educação de Surdos- relato de uma experiência que deu certo

S729r Souza, Maria Esther Gomes de.
Reflexões sobre práticas em Educação Especial / Maria Esther
Gomes de Souza.
– Porto Alegre : Alcance, 2012. 
60p.

A escola inclusiva que fala com as mãos:
a Língua Brasileira de Sinais como agente
de transformação da escola comum aberta a todos
Maria Esther Gomes de Souza
(p.39 a 50)

Resumo: A presente pesquisa foi realizada na Escola Estadual de Ensino Fundamental Desembargador José Bernardo de Medeiros, em Lavras do Sul/RS, em turmas do 1° ao 4° ano do Ensino Fundamental. Na escola era desenvolvido o Projeto “Escutando com os olhos e falando com as mãos”, de ensino da Língua Brasileira de Sinais – Libras – criado para vencer as barreiras de comunicação com um aluno surdo de treze anos, frequentando o 3° ano do Ensino Fundamental, que desconhecia a Língua Brasileira de Sinais, tendo como responsável uma profissional de educação especial. O aluno estudava na escola havia seis anos, tinha crises de agressividade e seu desenvolvimento integral e construção de identidade altamente prejudicados pela falta de comunicação. Em Lavras do Sul não havia grupos de surdos e nenhum conhecimento destes acerca da Língua Brasileira de Sinais. O ensino de Libras iniciou em 2010, na turma do 2° ano, na qual o aluno surdo estava incluído à época, estendeu-se ao 1°, 3° e 4° anos e respectivos professores. Em 2011 foi ampliado a todos os professores da escola. O objetivo principal era possibilitar que alunos e professores conhecessem a Língua Brasileira de Sinais, reconhecendo o surdo como sujeito visual e utilizando a Libras como forma eficiente de comunicação. O presente trabalho objetivou avaliar como a Libras deve ser trabalhada na escola comum para a real inclusão de alunos surdos, utilizando como metodologia a
observação de alunos e da comunidade escolar e pesquisa com os professores envolvidos.
Palavras-chave: Educação Especial. Libras. Surdo. Escola inclusiva.

Introdução
A presente pesquisa foi realizada na E. E. E. F. Desembargador José Bernardo de Medeiros, em Lavras do Sul/RS, onde atuava como educadora especial. A escola oferece à clientela 1° ao 5º ano do Ensino Fundamental, 5ª e 6ª séries. É uma escola pequena, numa comunidade dividida entre a zona urbana e rural. Na escola havia um aluno surdo matriculado, que, em 2010, cursava o 2° ano, com 12 anos de idade. O aluno era resistente à aproximação e tinha imensa dificuldade de se comunicar. Em Lavras do Sul não há associação de surdos e estes, tampouco, conheciam ou utilizavam a Língua Brasileira de Sinais – Libras. Este foi o contexto inicial encontrado quando cheguei à escola para desenvolver o trabalho de educação especial. Partindo dessa barreira de comunicação, em reuniões com a equipe diretiva e professora da aula comum concluiu-se que era essencial que o aluno surdo aprendesse a se comunicar em Libras, para posteriormente dar sequência ao aprendizado de conteúdos escolares. Minha formação de educação especial não era específica para o ensino de Libras, mas havia trabalhado anteriormente com surdos usuários da língua em outra cidade e tinha disciplina formativa no currículo, aprimorada por cursos básicos de capacitação. Cabe ressaltar que não havia nenhum instrutor de Libras na cidade ou surdo fluente na língua.
Inicialmente resistente, o aluno surdo dificultou muito o processo de ensino-aprendizagem da Língua Brasileira de Sinais, até então desconhecida para ele, mas percebia-se nos colegas ouvintes um desejo de aprender Libras, assim como por parte da professora regente e equipe diretiva, o que acabou originando o Projeto “Escutando com os olhos e falando com as mãos”, uma tentativa de ensino de Libras na escola comum, em agosto de 2010, que é o foco desta pesquisa.
O problema norteador da pesquisa, realizada de maio a setembro de 2011 foi “Como a Língua Brasileira de Sinais – Libras
– deve ser trabalhada na escola comum para que haja uma real inclusão do surdo?”, com objetivos de avaliar a metodologia utilizada no ensino de Libras neste contexto, o conhecimento e capacitação de gestores e professores sobre inclusão, registrar a significação da surdez nesta escola, identificar o papel do profissional de educação especial, relatar os serviços oferecidos ao aluno surdo e a participação da família neste processo de inclusão.

2. Desenvolvimento
2.1 A importância da Libras para a educação de surdos
A presente pesquisa foi realizada de maio a setembro de 2011, ano seguinte à implantação do projeto de Libras na E. E. E. F. Desembargador José Bernardo de Medeiros, em Lavras do Sul/RS.
O aluno surdo frequentava a escola há seis anos e há apenas nove meses estava em contato com a Língua Brasileira de Sinais, ensinada por professora usuária da língua oral.
A língua pode ser considerada como um sistema de constituição de sujeitos, de produção de significados culturais e sociais. A língua é o instrumento de perpetuação de valores, de hábitos, da história de um determinado povo ou região. Analisando o caso de um sujeito surdo, inserido no mundo ouvinte, sem uma língua própria, como poderíamos definir a sua identidade? As comunidades surdas muito têm lutado para que os surdos sejam educados como sujeitos visuais, que utilizam outro canal de comunicação. Mesmo com toda a divulgação das políticas de inclusão, ainda há um conhecimento muito superficial destas questões tão importantes por parte de muitos profissionais e gestores de educação. A superficialidade com que
essas questões são tratadas acaba dificultando que alunos surdos tenham acesso ao saber universal na escola comum e frequentem a escola sem receber o atendimento necessário para que aprendam e se tornem protagonistas de sua própria vida. Muitos alunos surdos ainda frequentam a escola comum apenas como observadores, o que é lamentável. O surdo deve ser respeitado como minoria linguística num mundo ouvinte, uma dicotomia. Viver com outra língua e outra cultura numa cultura maior dominante. Afirmar-se enquanto sujeitos individuais num mundo que pensa que todos os surdos são iguais. Aqui entra o papel determinante da Língua Brasileira de Sinais
– Libras: as mãos ganham “voz”. Ao ganharem voz, podem comunicar sentimentos, pensamentos, impressões. As mãos podem argumentar, defender pontos de vista, opinar. A Libras possibilita aos surdos o poder de se desenvolver e exercer sua cidadania. Segundo Vygotsky (1998), linguagem é pensamento e pensamento é linguagem.
A evolução do pensamento se dá segundo a evolução da linguagem. Pode-se deduzir, então, que a Libras é a possibilidade do pensamento surdo ganhar o mundo.
A Língua Brasileira de Sinais é assim considerada por ser capaz de passar conceitos concretos e abstratos, portanto, uma língua completa. A Lei Federal nº 10.436, de 24 de abril de 2002, dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais, em seu Parágrafo Único define:
Entende-se como Língua Brasileira de Sinais – Libras a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil.
O Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005, regulamenta a Língua Brasileira de Sinais – Libras e define que os sistemas de ensino devem garantir a inclusão de pessoas surdas ou com deficiência auditiva, organizando as escolas e classes bilíngues, nas quais a Libras e a Língua Portuguesa sejam línguas de instrução. Em seu Artigo 15, dispõe:
Para complementar o currículo da base nacional comum, o ensino de Libras e o ensino da modalidade escrita da Língua Portuguesa, como segunda língua para alunos surdos,devem ser ministrados em uma perspectiva dialógica, funcional e instrumental, como:
I – atividades ou complementação curricular específica na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental;
Todas as mudanças, tudo o que é novo, gera ansiedade.
A inclusão traz ansiedade. Ansiedade por temer não ter conhecimento suficiente para desenvolver aquele aluno. É um problema enfrentado diariamente por professores de toda ordem, principalmente professores de escolas públicas. Para que se construa uma escola inclusiva – sim, pois ela deve ser construída aos poucos, sem pressa, com a participação de todos os membros da comunidade escolar – é necessário contar com apoio especializado, que oriente professores, alunos e pais quanto às inúmeras dúvidas que surgem diariamente no cotidiano.
Para construir uma escola inclusiva, no que se refere à surdez, é imprescindível falarmos em “bilinguísmo”. O bilinguísmo propõe o aprendizado da Libras como língua natural, a primeira língua do surdo, e a língua portuguesa como segunda língua, a ser aprendida na forma escrita.
Fernandez apud Fantinel (2009, p. 37-38) diz que:
Bilinguísmo não é método de educação. Define-se pelo fato de um indivíduo ser usuário de duas línguas. Educação com bilinguísmo não é, portanto, em essência, uma nova proposta educacional em si mesma, mas uma proposta de educação onde o bilinguísmo atua como uma possibilidade de integração do indivíduo ao meio sociocultural a que naturalmente pertence, ou seja, às comunidades de surdos e de ouvintes. [...] É um modo de garantir uma melhor possibilidade de acesso à educação. Para a pessoa surda, tanto a leitura quanto a escrita apresentam-se como instrumentos que lhe permitem ampliar as suas possibilidades de comunicação bem como aprender novos conhecimentos.
A identidade é construída a partir do meio onde se vive, dos conceitos que são vividos. Como construir uma identidade sendo apenas observador? Como nominar sentimentos, sensações, se não temos uma língua? Como transmitir pensamentos se não temos língua? A escola comum, então, deu espaço para que a educação especial começasse a abrir caminhos para um novo tempo: o de possibilitar que alunos e professores construíssem uma nova identidade a partir de uma tentativa de educação bilíngue.

2.2 A pesquisa
Inicialmente, foi realizada análise da Proposta Pedagógica e do Regimento Escolar, bem como uma averiguação da capacitação para a inclusão dos professores de 1º ao 5º ano do Ensino Fundamental. Posteriormente, foi realizada a observação de alunos e questionário aberto com os professores.
As aulas de Libras eram ministradas uma vez por semana, em turmas do 1º ao 4º ano, em períodos de trinta a quarenta e cinco minutos. Com a turma de 1° ano do Ensino fundamental, a Libras foi introduzida no cotidiano através de músicas e histórias infantis, utilizando o lúdico e a expressão corporal. As aulas de Libras com as crianças de seis anos tinham sempre o teor de “brincar” com as mãos e com as expressões faciais e corporais. Com as turmas de 2º, 3º e 4º anos o foco era a comunicação e estrutura de Libras, utilizada em diversas situações, através de histórias e do conteúdo escolar. A turma de 3º ano, do aluno surdo, recebia um enfoque mais incisivo quanto à utilização de Libras e conteúdos escolares, enfatizando palavras, frases, exercícios e operações matemáticas. Todas as atividades artísticas da turma envolviam o uso de Libras, assim como várias outras apresentações de turmas diferentes.
O aluno surdo recebia atendimento em Sala de Recursos em turno inverso ao da aula comum. Neste momento, a Libras era trabalhada através de vídeos de professores surdos, procurando preservar a estrutura da língua, o que por vezes se mostrava difícil nos grupo de ouvintes, que tendiam a praticar o Português sinalizado, mesmo com as explicações da diferença estrutural entre as línguas. Cabe ressaltar que o aluno surdo começou a adquirir uma língua, a Libras, 1ª língua, e apontar a dificuldade para alfabetizar em Português escrito, 2ª língua. Um grande desafio que faz parte do cotidiano de diversas escolas brasileiras.
A observação durante as aulas de Libras teve como foco a participação dos alunos, a qualidade da comunicação compreensiva e expressiva, principalmente do aluno surdo, e interação entre surdo-ouvintes. As cinco professoras responderam questionário aberto constituído de sete perguntas:
1 – Você possui algum curso na área de inclusão?
2 – Quem, para você, é o sujeito surdo?
3 – Como a escola trabalha a Libras?
4 – Qual o papel do educador especial no processo de inclusão do aluno surdo?
5 – Houve mudanças na inclusão do aluno surdo na escola comum após o início do trabalho com Libras? Quais? Classifique em positivas ou negativas.
6 – Como, em sua opinião, a Libras deve ser trabalhada na escola comum para que haja uma real inclusão do aluno surdo?
7 – Qual o papel da Libras na escola comum?
Aqui serão citadas as respostas de três professoras, identificadas como Professora 1, Professora 2 e Professora 3. A Professora 1, ao responder o questionário, afirmou ter realizado pós-graduação em Psicopedagogia e Curso Básico de Libras. Acredita que o aluno surdo “é um sujeito que representa uma diferença em relação aos outros”. Acredita que a escola trabalha Libras “procurando a melhor forma de se comunicar com o surdo.” Vê o papel do educador especial como “muito importante, pois é o mediador da aprendizagem desse aluno, procurando ajudar o professor da aula comum.” E, quanto às mudanças na escola comum a partir do início do trabalho com a Libras, considera “positivas, toda a escola engajada. É negativa a falta de colaboração (participação) da família do aluno nas aulas de Libras.” Para ela, “o professor de Libras deve acompanhar o aprendizado do aluno, ajudando o professor em sua prática, avaliação e, também, auxiliando a socialização do aluno surdo”.
A Professora 2 relata que não tem curso na área de inclusão. Para ela, surdo é “qualquer pessoa que não ouve”. A Libras é desenvolvida na escola “através de um projeto onde a educadora especial trabalha com todos os alunos a Língua de Sinais.” Acredita ser a educadora especial “uma mediadora entre o aluno e o professor”.
As mudanças na escola “foram muito significativas, pois a partir da inclusão os alunos começaram a estabelecer entre si uma nova forma de comunicação. Dessa forma, o aluno surdo começou a fazer parte do contexto escolar”. Avalia que a Libras deve ser trabalhada na escola comum “como está sendo desenvolvida” e que o papel da Libras na escola comum é “proporcionar integração entre os alunos, professores e comunidade escolar.”
A Professora 3 informa que “algum tempo atrás fiz algo na área da inclusão, e estudei alguma coisa na graduação e pós-graduação”. Para ela, o surdo é “aquele que não ouve e, por isso, não consegue interagir”. Para ela a Libras é trabalhada na escola “envolvendo a todos, de maneira positiva” e o papel da educadora especial é “de muita importância”. Relata, ainda, que “houve mudança na inclusão do aluno surdo com o trabalho de Libras, pois se sentiu incluído na turma e na escola”. Para ela, a Libras deve ser trabalhada “envolvendo alunos, professores e funcionários” e o papel da Libras é “integrador”.
Nota-se que as Professoras 2 e 3 utilizam os termos “integração” e “integrador”. Aqui, estes termos não têm o sentido de integração versus inclusão, mas integrar no sentido de unir, englobar a todos. Percebe-se na fala de ambas que o ensino de Libras trouxe mudanças positivas e significativas para a escola e seus atores, pois surge uma nova forma de se comunicar, antes impossível para o aluno surdo e demais membros da comunidade escolar. A comunicação acontecia somente por meio de gestos indicativos e mímicas, era difícil atribuir qualquer conceito abstrato.
Durante o trabalho com Libras, o aluno surdo adquiriu nova postura também com relação à família: não queria que os familiares aprendessem Libras. Para ele, Libras era para ser utilizada somente na escola, naquele grupo. Também não permitia que utilizassem Libras para se comunicarem com ele diante de pessoas desconhecidas, até mesmo com outros surdos, em ambientes distintos, mas, na escola, utilizava livremente. Godfeld apud Casarin (2009, p. 17) enfatiza:
É sabido que mais de 90% dos surdos têm família ouvinte. Para que a criança tenha sucesso na aquisição da língua de sinais, é necessário que a família também aprenda esta língua para que assim a criança possa se comunicar em casa.
A mãe, por diversas vezes, ligava ou ia até a escola perguntar o significado de um sinal, pois não conseguia entender o filho, mas o filho não aceitava que a mãe aprendesse Libras. A escola tornou-se um espaço libertador para o aluno, onde todos falavam a mesma língua, uma língua compreensível para ele. Mas a barreira de ser minoria linguística não foi transposta em outros espaços.

3 Conclusão
A presente pesquisa teve como objetivo geral identificar como a Língua Brasileira de Sinais – Libras – deve ser trabalhada na escola comum para que haja uma real inclusão do aluno surdo. Para tanto, foi realizada análise da Proposta Pedagógica e do Regimento Escolar, observações de alunos e questionário aberto com professores. Tanto a Proposta Pedagógica quanto o Regimento Escolar faziam referência à educação especial e inclusão, apesar de não haver tópico específico sobre Libras e sua estrutura. A escola oferece à clientela, desde dezembro de 2010, uma Sala de Recursos para Deficiência Auditiva, apesar de não ter ainda diversidade de materiais, computadores e mobiliário. Quatro dos cinco professores das séries iniciais possuem conhecimento sobre inclusão na teoria, adquirido em Seminários e/ou Oficinas. Uma professora e a diretora são pós-graduadas em Psicopedagogia Institucional. Percebe-se uma boa articulação entre gestores e professores e boa participação da comunidade escolar.
O projeto de ensino de Libras “Escutando com os olhos e falando com as mãos” iniciou como uma tentativa de que o aluno surdo da escola aceitasse aprender Língua Brasileira de Sinais e que sua professora e colegas pudessem se comunicar com ele.
A professora da aula comum participava ativamente das aulas de Libras e utilizava os sinais durante todos os momentos em aula, utilizando recursos variados e realizando curso de capacitação na área.
A escola comum tinha o anseio de ser uma escola inclusiva. Partindo desse desejo, o projeto simples, inicial, do ensino de Libras, tomou o status de agente de inclusão: todos queriam aprender Libras, todos queriam utilizar Libras para se comunicar com o colega surdo e com demais colegas. Agora, o antes chamado de “mudo” passa a ser chamado por seu nome e sinal próprio. A palavra “mudo” sumiu do cotidiano escolar. O antes aluno resistente e problemático passou a ser um menino calmo, prestativo e disposto. Sua frequência à escola aumentou significativamente e começou a demonstrar grande interesse em participar das mais diversas atividades, que antes eram quase sempre rejeitadas. Foi possível a realização de provas com conteúdos escolares, traduzidas para Libras, onde foi percebido que o aluno já começava a associar várias palavras do Português escrito a sinais, ótimo reconto, assim como bom raciocínio lógico.
Os demais alunos que apresentavam problemas de adaptação e dificuldades diversas, encontraram, no aprendizado da Libras, uma nova oportunidade de se expressar e aprender. Se tinham dificuldade para ler, podiam contar histórias utilizando sinais. Se o problema era na correspondência fonema/grafema, a datilologia se tornou a alternativa. Todos os alunos do 1º ao 4° ano recebendo, juntos, uma aproximação da educação bilíngue. Entre eles, pôde-se perceber o imenso respeito pela diferença. O caso de um aluno, filho de surdo, chamou a atenção. O pai não tinha conhecimento da Língua Brasileira de Sinais. O filho passou a ser “professor” de seu pai, que começou a vir seguidamente à escola para conversar com a educadora especial.
É importante enfatizar que a ausência de grupos de surdos usuários de Libras e articulados é uma barreira para que a língua seja propagada por seus “falantes” naturais, que, certamente, dariam outra dimensão em termos de cultura surda. Mas, não podemos esquecer que essa também é uma realidade em várias cidades pequenas, que acabam se confrontando com a realidade das grandes cidades, onde há grupos de surdos estruturados e politizados, que sabem defender seus direitos. Não se faz aqui, em hipótese alguma, uma apologia contra as escolas e classes especiais de surdos, apenas um relato de pesquisa realizada em uma escola de uma cidade que não utilizava a Língua Brasileira de Sinais.
Não é possível dizer que há um modelo para a inclusão, apenas podemos dizer que, para acontecer, deve ser desejada. A inclusão começa a acontecer quando os membros da escola, da sociedade, começam a perceber que todos são diferentes e têm seus direitos dentro de suas diferenças. As pessoas são diferentes, os alunos são diferentes, as escolas são diferentes. Cada escola deve conhecer a sua realidade e sua comunidade e, então, tentar se adaptar às necessidades de seus alunos. A construção da escola inclusiva é um processo natural, que vai sendo efetivada no dia a dia, com a flexibilização curricular, avaliações diferenciadas e transversalidade de ações da Educação Especial. A escola inclusiva é construída por todos os membros da comunidade escolar. O enorme interesse da direção e professores para que houvesse uma real inclusão do aluno surdo mostra que há evolução quanto à educação inclusiva. A aceitação da Libras por gestores, professores e alunos foi determinante para que a escola comum se transformasse na escola aberta a todos.
Pode-se afirmar que o ensino de Libras modificou a E. E. E. F. Desembargador José Bernardo de Medeiros. A Língua Brasileira de Sinais ensinou que todos podem aprender juntos, mesmo utilizando formas diferentes de comunicação, línguas diferentes. Que o ser humano é sempre ser humano, e o fato de sermos diferentes não nos torna nem melhores e nem piores. A partir de todo esse trabalho de aprendizado da Libras, o aluno passou de deficiente a sujeito-visual, plenamente capaz, como qualquer outro aluno da escola. É uma enorme mudança de pensamento para as crianças, que passam, então, a conviver de uma nova forma com as diferenças. A escola que fala com as mãos, escuta com os olhos e o coração.

4 Referências
BRASIL. Lei Federal nº 10.436, de 24 de abril de 2002.
BRASIL. Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de 2005.
CASARIN, Melânia de Melo; et al. Especialização em Educação Especial: déficit cognitivo e educação de surdos. Caderno do Módulo II. Santa Maria: CE/UFSM, 2009.
FANTINEL, Patrícia; et al. Especialização em Educação Especial: déficit cognitivo e educação de surdos. Caderno do Módulo II. Santa Maria: CE/UFSM, 2009.
VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1998.
50 Reflexões sobre práticas em Educação Especial

domingo, 27 de novembro de 2016

Algumas coisas que eu já aprendi



Pra começar: ter saúde é uma bênção.
A fé é poderosíssima!
Os teus amigos de infância e adolescência, provavelmente, serão teus amigos até o fim da vida. Eles não irão te julgar, nem desconfiar de ti. São, simplesmente, amigos de verdade e poderás contar com eles.
Praticar um esporte -especialmente coletivo - orientado por um bom professor, que ensine a perder e a vencer, desenvolva espírito de equipe, solidariedade, garra, dedicação, disciplina, perseverança e união, fará toda a diferença, positivamente, em qualquer situação a ser vivida posteriormente.
Aproveita tua família o máximo que puderes! Convive com mãe, pai, irmãos.  Pede pros teus avós, pais e tios contarem histórias sobre eles e os antepassados. Quando ficamos mais velhos, gostamos de saber de onde viemos.
Não há forma mais forte e suave de se educar do que o exemplo. As palavras se dissolvem no dia a dia, diante das ações. Bom discurso sem atitude, não é nada.
Não se deve tirar conclusões precipitadas, pois corre-se o risco de ser injusto.
Voltar atrás e pedir desculpas é sábio.
Observar as atitudes das pessoas em situações diferentes nos dá a exata noção de quem são. Quem age mal, provavelmente, agirá mal novamente.
Perdoar é bom para quem perdoa e para quem agiu mal e se arrependeu de seu erro. Perdoar quem não reconhece o erro: sim, mas preferível a quilômetros. Não conviver é melhor.
Tem gente que não gosta da gente. Ponto. Assim como tem gente que a gente não gosta.
Forçar situações, sejam elas de amizade ou amor, não trará nada de bom no final.
Devemos separar o trabalho da vida pessoal o máximo que for possível. Alguns colegas e clientes podem vir a se tornar amigos, mas, a princípio, cada um na sua.
O profissional não deve se sobrepor ao ser humano. Portanto, muita cautela ao tomar decisões e respeito ao tratar as pessoas.
Pessoas que praticam o bem, certamente praticarão o bem. Pessoas que fazem maldade, certamente farão maldade.
O poder seduz e corrompe grande parte das pessoas.
Que não tem limite ao agir e não mede conseqüências, é uma pessoa perigosa.
Investir na primeira infância, crianças e adolescentes é retorno certo.
A arte verdadeira é a que brota da alma, do coração, sem o intuito de manipulação. A arte exprimir a verdade que o artista sente.
Da mesma forma que o poder, o sucesso é um sedutor perigoso.
Egos inflados: tô fora!
Quando não nos querem em um lugar, melhor não irmos. Energia ruim e “climão” não fazem bem à saúde. Podendo evitar, façamos isso.
Não adianta levar música nova pra quem não quer aprender a dançar.
A reação das pessoas a ti nem sempre depende da tua atitude. Cada um tem percepção diferente do mundo e das situações.
Pessoas inseguras se sentem ameaçadas pelos outros.
Nossa vida deve ser medida pela quantidade de bondades e gentilezas que fazemos pelo percurso.
Escolher bem a profissão é determinante no nosso humor e qualidade de vida futura.
Decisões que afetarão a nossa vida deverão ser tomadas exclusivamente por nós. Ouçamos conselhos, mas decidamos sozinhos. Opiniões de quem está de fora não englobarão o que estamos sentindo.
Conversar com as pessoas que nos amam pode abrir possibilidades que não havíamos vislumbrado perante uma situação.
 A intuição costuma nos manter seguros. É preciso aprender a ouvi-la.
Todo livro tem, em suas páginas, exemplos e lições de alguma coisa que em algum momento da vida poderá ser útil. Mesmo que seja de algo a não ser feito.
Procura agir, sempre, dentro dos princípios que acreditas.
Bem, seria uma lista muito maior! Mas, vou parando por aqui. Noutra feita, quando inspirada, seguirei relatando algumas experiências.
Uma sugestão: divirta-se! Um mate, um passeio, uma festa com os que te querem bem. Isso vale à pena!

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Retornando, com novidades!

Andei sumida daqui! O face me absorveu...mas, resolvi retornar a este espaço que gosto tanto!
Divido com vocês a felicidade de ter modelado para a fotógrafa Nina Boeira e ter feito parte de sua exposição. A cada experiência, vamos aprendendo algo e evoluindo!

Lancei novo livro, uma novela ambientada nos anos 80, chamada SEM PARAR. Só me trouxe coisas boas, a começar pela capa do Régis Duarte, fotografia do Tiago Coelho, comentários das escritoras Carla Reverbel e Luciana Campos, que tanto admiro, sem contar o reencontro com tantos que amo e novas amizades!

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Ó Capitão! Meu Capitão! Fernandão Eterno!

Ó Capitão! Meu capitão!
(Walt Whitman)...
Ó Capitão! Meu capitão! Nossa terrível viagem se cumpriu,
O Navio cruzou tormentas, é nosso o prêmio pio,
O porto vê-se ao perto — os sinos dobram, o povo espera,
Olhos que à quilha firme tornam, desta nave forte e fera;
Mas Ó coração, coração!
Ó gotas de vermelho brio,
No convés em que ele dorme,
Deitado morto e frio.

Ó Capitão! Meu Capitão! Te levanta, escuta os sinos,
A ti se desfraldam bandeiras — a ti se dirigem os hinos,
Vê quantas flores e coroas, tantos atavios cobrindo a costa,
Vê a multidão que clama — comovida massa, a dor à mostra;
Eis a mão de quem te ergue!
Aqui, capitão! Aqui, pai gentil!
— Ah! O sonho se desfaz no deque,
Onde quedas morto e frio.

Meu Capitão já não responde, a boca sem vigor e viço,
Meu Capitão já não se move, cessa o pulso, o corpo rijo,
Sã e salva a nave ancora — o périplo se encerra e tudo finda,
Da viagem vil a nau retorna — o grande prêmio, a glória vinda;
Ó clamor das praias, Ó dobrar dos sinos!
Só me restar andar sombrio,
No convés em que ele dorme,
Deitado morto e frio.
[Tradução de Bruno Gambarotto]

sábado, 29 de novembro de 2014

Eu sou Malala. Também.



Terminei ontem a leitura da história de Malala Yousafzai, a menina paquistanesa que foi baleada pelo Talibã e ganhou o Prêmio Nobel da Paz este ano. Atualmente, tem 17 anos, mas, à época do início de sua história, era apenas uma criança. O livro relata com detalhes as inúmeras disputas e guerras locais, difícil para nosso entendimento ocidental, pois vivemos em estados laicos. Tudo, absolutamente tudo lá se passa em torno da religião. Da má interpretação da religião, diga-se de passagem.
Malala é filha de um pai iluminado, um homem muito à frente de sua sociedade, um homem com profundo respeito e conhecimento religioso e profundamente livre. Não seria este o real sentido da religião? Todo o tempo, Malala cita sua cultura, seus costumes, e sente-se feliz por ser muçulmana. Para ela não é nenhum sacrifício. Sacrifício é ver seu sagrado livro mal interpretado e usado como desculpa para barbáries. Todo o tempo ela cita que "isso não é o que está escrito."
Ao mesmo tempo que leio seus relatos de defesa pelos direitos das meninas, vejo seu lado adolescente e todos seus meandros, sua competição com as colegas, as brigas bobas, as analogias ao livro Crepúsculo, à Paulo Coelho e "O Alquimista". Aqui senti-me infinitamente próxima desta menina, uma vez que dividimos as mesmas opiniões sobre uma infinidade de princípios. Malala toca porque é uma menina comum, que vê as coisas de forma simples. É ferida por proibições descabidas, pois não compreende como podem complicar algo tão simples e tão natural como estudar, ter uma profissão e ter direito de escolha. É tão humana que sentiu muito medo, e mais humana ainda por conseguir transformá-lo em energia para mudança. Malala e sua família são seres humanos normais, porque anormais são os que desejam o mal e fazem o mal. Pessoas que querem paz para viver são pessoas. O resto é arremedo de gente.
Após tudo o que lhe aconteceu, nunca mais terá a mesma vida. Se não tivesse acontecido o atentado, seríamos privado de conhecer uma alma incrível, um pai devotado e uma família caridosa e corajosa. Há muitas razões que desconhecemos no destino traçado pelo Senhor. Malala reabasteceu a minha fé e encheu meu coração de coragem.
 Humildemente, agradeço.

sábado, 10 de maio de 2014

Livre, leve e solta

Demorei pra voltar aqui. Confesso que troquei o modelo do blog e me "apertei" depois: não sabia mexer! Mas, faz parte! Agora estou de volta.
Aconteceram coisas difíceis no início deste ano de 2014, que vieram a modificar muito a minha vida. Tornei-me mais forte, tomei e sigo tomando decisões que há muito vinha prorrogando. No fim das contas, o que se apresentou como ruim trouxe um saldo extremamente positivo ao meu amadurecimento. Senti na pele, mais uma vez, que tendo fé tudo se torna mais fácil de suportar e superar. Fiquei totalmente nervosa, acredito que recém nesta semana comecei a voltar ao meu normal. Nem acredito que consegui seguir trabalhando e mantendo o norte com o susto que tomamos! Só a fé explica.
Meus ouvidos andam impossíveis, me sinto uma barata-tonta no meio da multidão às vezes, mas também é parte do jogo. A vida se torna bonita pela maneira com que encaramos os problemas.
Decidi como quero seguir trabalhando. Decidi que minha prioridade são meus sentimentos, minha saúde. Decidi que quero seguir leve e solta, sem amarras, sem gente me chateando e me cobrando por coisas que não são prioridade pra mim.
Com licença: tenho 41 ano e sou livre para voar!

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Feiras do Livro

Nossa!!! NUNCA imaginei que estaria autografando numa Feira do Livro, porque nunca imaginei que lançaria um livro! Quando eu estava na 4ª ou 5ª série, fiz um esboço de uns dois capítulos. Mas ficou lá. Bem, apareceu um concurso de crônicas e participei. Tirei 4° lugar. A editora me enviou um e-mail me chamando para autografar na Feira do Livro de Porto Alegre em 2009. Eu fiquei pasma! E fui, bem faceira! Em 2012, meu livro "Reflexões sobre práticas em Educação Especial" , na APAE em Lavras, em Porto Alegre novamente e no Café Cultural da 21ª Feira do livro do Marista Sant'Ana. Que emoção!
Este ano, meu sonhado "De Rio e Pedras", na Semana Farroupilha de Lavras do Sul (que amo), 59ª Feira do Livro de Porto Alegre e autógrafos na 22ª Feira do Livro do Colégio Marista Sant'Ana, em Uruguaiana, com direito à homenagem. Meu Deus, será que estou sonhando?
Tantas pessoas, tantos amigos que fiz no caminho, tantos leitores que estou conquistanto, tantos autores que tenho conhecido...a literatura tem sido uma bênção divina. Livros abrem os horizontes e nos fazem voar!
Tudo isso começou porque tive uma oportunidade e tentei.
Fica a dica: tentem!

Meu Debut na Feira do livro de POA, em 2009. Óbvio que o Felipe foi!
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Na Semana farroupilha em Lavras, lançamento "De Rio e Pedras", com a Mami Cristina. Comprou o primeiro livro!



59ª Feira do Livro de POA. Nós!